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História de Trancoso
A
tentativa de reconstruir a história de Trancoso esbarra na dificuldade
de informações a respeito da antiga aldeia indígena que
surge (ou mesmo já existe), na época da chegada dos portugueses,
durante os primeiros anos do século XVI.
Com base em textos de autores que relatam algo específico sobre o local
foi formada uma 'colcha de retalhos', buscando a liga durante o trabalho de
pesquisa.
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História
-
- -O
documento raro, encontrado em livro de Abreu (1969* p.205) demonstrado
na figura seguinte, confirma algumas informações já
conhecidas sobre Trancoso, no Brasil Colônia. Registra as missões
dos jesuítas como doutrinadoras dos habitantes locais: tupinambás
e tupiniquins.
No mesmo documento aparecem dados inéditos, ainda não
transcritos por outros historiadores pesquisados. Menciona o primeiro
nome de origem portuguesa, provavelmente colocado por missionários
que habitam a região a partir de 1503 - 'São João
dos Topes'. E aquele que recebe depois da Ordem Régia, em 1759,
que transforma a aldeia em Vila - o então conhecido nome 'Trancoso'.
Registra o referido documento uma população formada na
época por 120 casais.
-
- -Conforme
Romeu Fontana (1988, p.56), em 1586 foi fundada a aldeia 'São
João dos índios', ou mais precisamente 'São João
de Toran’, como esclarece a pesquisa de Capistrano de Abreu (1969,
p.205), em seu livro "Capítulos da História Colonial".
Como fundadores dessa aldeia colonial estão os jesuítas,
que a administram por quase 200 anos.
Possivelmente a antiga aldeia de Boipeba, outro nome citado por Fontana,
refere-se a uma época anterior, quando era ainda genuinamente
uma aldeia indígena, talvez visitada pêlos primeiros missionários
franciscanos, enviados em 1503 por D. Manuel, rei de Portugal. (Fontana,
1988, p.41).
-
- -Habitada
então por índios tupinambás e tupiniquins, pertencendo
a Porto Seguro, acompanha, o ritmo da Capitania. Passa por diferentes
momentos e dificuldades, sofre ataques indígenas de tribos, como
a dos aimorés. Estes combatem colonizadores portugueses, que
impõe sua cultura e modo de ser e indígenas não
resistentes a colonização.
-
- -Outras
perseguições, de cunho religioso, também tumultuam
o desenvolvimento local, sendo encontrados poucos registro claros e
exatos sobre as mesmas. Três pesquisadores investigados durante
esta pesquisa, dão detalhes sobre a Santa Inquisição,
e seus reflexos no Brasil, e mais precisamente em Porto Seguro. Pela
importância e raridade dos registros, o assunto é tratado
com mais detalhes no capítulo 'Formação Étnica
e Cultural', ainda neste trabalho.
É importante localizar o século XVI. Época da expansão
marítima européia e da colonização portuguesa
no Brasil, iniciada exatamente em Porto Seguro a partir de 1500. Essa
visão mais ampla possibilita a compreensão das idéias
que vieram com essa colonização.
-
- -O
mundo europeu ocidental passa nessa época por um processo histórico,
no qual duas mentalidades mesclam-se. A da 'Idade Medieval' que se despede
deixando suas marcas agrárias, rotineiras, e apegadas à
fé cristã. E a da 'Modernidade' que dá seus primeiros
passos, iniciando a corrida do campo para as cidades que surgem, dando
início a uma nova vida mais voltada para a razão.
Os autores Wehling & Wehlíng (1994), ao analisarem a formação
do Brasil Colonial, descrevem a sociedade européia nesse tempo
composta por um agregado de comunidades, com peculiaridades regionais,
lingüísticas e étnicas.
- - -Tribunal da Santa Inquisição: ou Santo Ofício, instituição religiosa criada pela Igreja Católica para enfrentar o avanço do 'movimento cátaro' (cristãos do sul da França). Desde o século XIII, ameaçava a Europa, estendendo-se por vários países, inclusive em Portugal a partir de 1536, chegando a ter forte influência no Brasil Colônia, através de "padres visitadores", representantes da instituição, que intimidavam a população com interrogatórios e duras penas aos presos, acusados de heresia (tudo o que não fosse de acordo com o cristianismo pregado pela Igreja Católica da época).
-
- -A
população portuguesa da época divide-se entre duas concepções:
a 'medieval' que propagava uma visão imposta pelo cristão; e
a 'moderna', com predomínio da razão e rebelião contra
as fórmulas tradicionais. (Wehling & Wehling, 1994, p. 21-7)
Viajantes, náufragos, degredados, missionários e aventureiros,
são esses os primeiros colonizadores que atravessam o mar em busca
de um novo destino. Iniciam a vida em Porto Seguro, com a construção
de pequeno forte, uma igreja e uma residência, onde passam a morar os
padres franciscanos.
-
- -Até
1526, quando foi fundada a primeira feitoria, por Cristóvão
Jacques, na cidade baixa de Porto Seguro, só há notícias
de defesas contra invasores franceses e espanhóis. Estão estes
em busca da exploração de pau-brasil, que é arrendada
pelo rei para comerciantes portugueses, usando a mão-de-obra indígena
sob forma de escambo: em troca de espelhos e objetos de metal como facas e
machados.
Fonte: figura de Bueno (1998 p.56).
-
- -Surge
nessa época um avanço tecnológico nas comunidades indígenas.
Um passo da pedra ao metal. (Wehling & Wehling, 1994, p.45)
A história entra em nova fase, a partir de 1530, quando a terra é
dividida em Capitanias Hereditárias. Surge então a Capitania
de Porto Seguro, onde provavelmente já estava estabelecida a aldeia
indígena de Boipeba, hoje Trancoso.
-
- -A
colonização portuguesa traz, com as capitanias, um modelo europeu
e busca impor um modo de vida 'branco, cristão e civilizado'. Tenta
modificar valores culturais encontrados na terra em domínio, originando
resistência em boa parte dos indígenas.
Nessa época judeus, mouros, ciganos, e povos que não seguem
a mesma filosofia religiosa, são perseguidos em seus lugares de origem,
acolhidos em Portugal, e obrigados pelo Estado a converterem-se em cristãos.
Recebem o rótulo de 'cristãos-novos', sendo que muitos são
enviados para a expansão da colonização.
-
- -Degredados
também são aqui enviados para rendição de suas
penas e povoação das terras, sendo os intermediários
entre a população indígena e os portugueses colonizadores.(Bueno,
1999, p. 13 - 4).
Poucos são os documentos que relatam esse primeiro século da
história de Trancoso, de Porto Seguro ou mesmo do Brasil.
A história só começa a ser registrada por alguns viajantes,
a partir de 1534, quando é estabelecida a Capitania de Porto Seguro.
Para povoá-la vem com o donatário colonos que constituem em
Portugal a classe composta por: 'artesões' (sapateiros, marceneiros,
ferreiros...), 'camponeses' (vinculados a terra) e demais 'homens livres'
(pescadores, serviçais...).
-
- -A
classe menos favorecida de Portugal é atraída pela propaganda
pró-emigratória para o Brasil. A chamada terceira ordem, que
forma junto da primeira - clero, e da segunda - nobreza, a sociedade européia
da época. (Wehling & Wehling, 1994, p. 26-60 passim)
Nessa época surgem os primeiros engenhos de açúcar, iniciados
por proprietários de terras a aspirar a possibilidade de pertencer
à nobreza no Brasil colônia. Em um primeiro momento, as atividades
utilizam a mão-de-obra indígena, fracassada pela própria
cultura destes que não conhecem a vida fora da natureza e uma disciplina
de trabalho que não corresponde também as leis naturais.
.Em 1537, uma proibição da escravidão de índios
pelo Papa Paulo III, define uma mudança. (Wehling, Wehling, p. 58).
Em 1538, vem então a primeira leva de africanos para compor a nova
mão-de-obra dos engenhos.(Fontana, 1988, p. 42)
-
- -Lindley,
viajante inglês, descreve em página de seu diário na cadeia
de Porto Seguro, quando preso por contrabando de pau-brasil, já no
século XIX, mais precisamente em 1803, o significado do termo 'engenho'.
"O que vemos aqui é muito simples, consistindo em três cilindros
de pesada madeira, de dois pés de diâmetro por três de
comprido, os quais giram horizontalmente numa armação. A parte
superior do cilindro central articula-se com uma viga que sobe pela armação,
sendo nela fixadas peças transversais suficientemente baixas para nelas
serem atrelados dois cavalos, que fazem mover o conjunto. Os cilindros laterais
trabalham por meio de uma engrenagem que os liga ao central. Debaixo dessa
máquina existe um cocho comprido, inclinado, pronto a receber o caldo
da cana comprimida pêlos cilindros, esse caldo é transportado
para um caldeirão raso, de seis pés de diâmetro, onde
são escumadas todas as impurezas. Depois de esfriar noutra vasilha,
adiciona-se-lhes um álcali de cinzas de madeira, deixa-se que a mistura
assente por alguns dias e decanta-se o líquido puro, levado então
a uma caldeira para evaporar-se até formar o açúcar.
"( Lindley, 1969, p. 41-2)
-
- -Retornando
ao ano de 1545, a Inquisição é instalada em Portugal
e no ano seguinte o donatário de Porto Seguro: Pêro de Campos
Tourinho é acusado por blasfémia e heresia, sendo preso e enviado
para julgamento no reino, nunca mais retornando. A partir de então,
a região de Porto Seguro passa por fases cada vez mais difíceis,
de lutas e discórdias entre nativos e colonizadores, e mesmo entre
os diferentes grupos indígenas.
Muitos desses grupos, principalmente os aimorés, não interagem
com os colonizadores, e que durante séculos invadem Porto Seguro e
imediações, destruindo os engenhos e exterminando grande parte
dos colonizadores, dos índios integrados, e dos escravos africanos.
-
- -Em
1549, chegam os primeiros jesuítas, entre eles também 'cristãos-novos'
admitidos na Companhia de Jesus. Foram construídas mais igrejas, inclusive
uma exclusivamente para negros, um dos povos extremamente descriminados da
época, considerados apenas como raça escrava, sem direitos.
O historiador português Serrão (1968, p.69) fala sobre crenças
diferentes e liberdade de credo existentes no início do Brasil Colónia,
tidos como 'heresia', isto é, negação da cristandade.
Em 1551, uma nova leva de africanos chega a Porto Seguro, conforme Fontana
(1988, p.42), provavelmente para substituir aqueles que são exterminados
nas brigas internas, ou mesmo pela própria vida escrava.
O jornalista e escritor Eduardo Bueno (1999, p.246) narra os ataques indígenas
constantes, sofridos pela Capitania nessa época, tendo como consequência
seu despovoamento. Muitos moradores vão para Pernambuco, permanecendo
em Porto Seguro poucos habitantes.
-
- -Encontra-se
em Abreu (1960, p. 191), uma carta do Padre João de Aspilqueta, datada
de 1555, enviada de Porto Seguro, aqui transcrita, por ser um dos poucos documentos
da época que falam sobre costumes das aldeias locais, tendo portanto
um valor especial para a presente pesquisa:
"Caríssimos irmãos. Passa de anno e meio que por mandado
de nosso P. Manuel da Nobrega ando em .companhia de doze homens christãos,
que por mandado do Capitão entrarão pola terra dentro a descobrir
se havia alguma nação de mais qualidade, ou se havia na terra
coisa porque viessem mais christãos a povoal-a, o que summamente importa
para a conversão destes gentios. Esta não he senão para
lhes dar conta como depois do tempo que disse voltei com todos os doze companheiros,
pela graça do Senhor, salvos e em paz que era o para que o padre me
enviara com elles....direi alguma coisa do que passamos e vimos ... livrando-nos
também de muitos perigos de Índios contrários que algumas
vezes determinaram matar-nos; principalmente em uma aldeã grande onde
estavam seus feiticeiros fazendo feitiçarias, aos quaes, porque andam
de uma parte para outra, fazem os Índios grandes recebimentos, concertando
os caminhos por onde hão de vir e fazendo grandes festas de comer e
beber."
-
- -Estava
pois nesta aldeã muita gente de outras aldeãs que era vinda
ás festas dos feiticeiros: logo que nos chegamos houve entre elles
algum alboroto: mas um indio principal que ia comnosco mui bom homem, começou
a fazer-lhes uma pratica a seu modo, com que socegaram. Apesar disso não
quizemos ahi demorarmos mia que aquella noite que foi para tnim mui triste
e mui comprida; porque vi cousas que fiquei espantado. - No meio de uma praça
tinham feito uma casa grande, e nella outra mui pequena, na qual tinham uma
cabaça figurada como cabeça humana mui ataviada a seu modo,
e disiam que era o seu santo, e lhe chamavam "Amabozarai", que quer
dizer pessoa que dança e folga, que tinha a virtude de fazer que os
velhos se tornassem moços. Os índios andavam pintados com tinta,
ainda nos rostos, e emplumados de pennas de diversas cores, bailando, e fazendo
muitos gestos, torcendo as bocas e dando uivos como perros: cada um trazia
na mão uma cabaça pintada, dizendo que aquelles eram os seus
sanctos, os quaes mandavam aos índios que não trabalhassem por
que os mantimentos nasceriam por si, e que as frechas iriam ao campo matar
a caça: esta e outras muitas cousas que eram para chorar muitas lagrimas
vi....Ò fructo solido desta terra parece que será quando se
for povoando de christãos. Ds. N. Sor. Por sua misericorida tire estes
miseráveis das abominações em que estão, e a nós
outros dê sua graça, para que sempre façamos sua santa
vontade. De Porto Seguro, dia de S. João. Anno de 1555. (Abreu, 1960,
p. 191-98)
-
- -Na
carta, a visão cristã europeia, sobre a cultura existente na
terra, espanta-se com os ritos religiosos indígenas, entendendo que
devem ser convertidos para que se tornem religiosos cristãos, desconsiderando
dessa forma a religiosidade existente. Pelo que descreve no início
o objetivo de sua missão é uma análise do local e da
população, que continuava vivendo em conflitos.
A continuidade ao plano de repovoamento, do qual faz parte a missão
do Padre João Aspilqueta, prossegue em 1563. Nova leva de jesuítas
e construção de um colégio para o ensino da gramática
latina, traz outra etapa para Porto Seguro. (Fontana, 1988, p.42)
Promovem os jesuítas grandes festas, unindo o costume indígena
com datas religiosas, como o Natal e a Páscoa. Surgem atrações
como touradas, jogo de argolinhas com foguetes, conforme relato de Fontana
(1988, p. 42)
-
- -Em
1564, a aldeia Juruacema, perto de Trancoso é despovoada devido a guerra
entre moradores e Aimorés. (Sousa, 1971, p. 84)
Em narrativa do Príncipe Maximiliano, viajante inglês naturalista,
consta descrições sobre o local desta aldeia e algo sobre a
guerra que a destrói.
Uma vez alcançada a margem do norte com toda a "tropa", avançamos,
ao longo da costa, pela planície coberta de frondosas balsas, limitadas
à distância por colinas; mas logo de novo encontrámos
altas e Íngremes ribanceiras de argila e arenito, que foi preciso escalar,
pois as vagas impetuosas tomavam a costa inacessível. Segue-se uma
trilha escarpada até o cimo dessas "barreira", e entra-se
num altiplano, num "campo", denominada Jauassema ou Juassema. Nesse
local, de acordo com a tradição dos moradores, houve outrora,
nos primórdios da colonização portuguesa, grande e populosa
vila do mesmo, ou Insuacume, mas que, à maneira de Sto. Amaro, Porto
Seguro e outros estabelecimentos, foi destruída pela guerra com uma
bárbara nação de canibais, a "Abaquirá"
ou "Abatirá". Essa tradição se baseia, sem
dúvida, nas devastações que os Aimorés, ora Botocudos,
levaram à "capitania" de Porto Seguro, quando a invadiram
em 1560, conforme encontrámos Relatado na History of Brazil de Southey
e na Corografia Brasílica. (Maximiliano, 1940, p. 213-14)
-
- -As
narrativas encontradas comprovam que o local permanece no primeiro século
sofrendo guerras e ataques indígenas constantes. Em meio a esses conflitos
internos, outros vem do além mar. Portugal perde o domínio do
seu reino para a Espanha. Os 'braços' da Inquisição chegam
ao Brasil através do apoio do novo rei.
-
- -Filipe
II inicia em 1580 os próximos 60 anos de reinado espanhol em Portugal,
apoiado pela nobreza e clero, com reflexos no Brasil. (Wehling & Wehling,
1994, p. 65). Sabe-se através do pesquisador José Gonçalves
Salvador, na investigação dos 'Cristãos-novos, os Jesuítas
e a Inquisição' que Filipe II simpatizava com a Inquisição,
apoiando a vinda de um delegado do Santo Ofício para o Brasü.
(Salvador, 1969, p. 87). Em 1583 o missionário português de Viana,
Fernão Cardim, jesuíta, acompanha o 'padre visitador'11 Cristóvão
Gouveia em viagem à Bahia. Passa por Porto Seguro e escreve suas impressões
nos 'Tratados da Terra e Gente do Brasil";A aldeia São João
dos índios, ou São João de Toran, é fundadaIA
em 1586, e passa a ser administrada pêlos jesuítas.
11 Funcionário da Inquisição, que operava nos portos
marítimos onde não havia o Tribunal. Representando o Santo Oficio,
coletava o material necessário para as denúncias.
A fundação é considerada como um marco de quando os jesuítas
assumem a sua administração, sendo que a aldeia já existia
como um espaço social indígena.
-
- -O
missionário Cardim, companheiro do 'padre visitador' Cristóvão
de Gouveia, que anda por Porto Seguro em 1583, faz referência as aldeias
de índios. Os padres têm a seu cargo "duas aldeãs
de índios, que terão passante duzentas pessoas e visitam outras
cinco ou seis, com muito perigo dos Guaimurés". (Cardim, 1980,
p. 149) É muito provável que entre as aldeias citadas, encontre-se
a 'Boipeba', que deu origem a Trancoso.
-
- -Em
um trecho de sua narrativa, descreve a visita na aldeia São Matheus,
que fica a '7 léguas', ou 42 Km da Vila de Porto Seguro, "passámos
um rio caudal mui formoso e grande, [fala do Rio Buranhém] caminhámos
uma légua [6 km] a pé, em romaria a uma nossa Senhora da Ajuda
que antigamente fundou um padre nosso; por uma praia alegre". (Cardim,
1980, p. 148)
-
- -Pela
narrativa a aldeia de São Matheus deveria ser muito próxima
à 'aldeia de Boipeba', como se chamava na época a futura São
João dos índios, ou ainda São João de Toran. Esta
ainda não existia oficialmente, o que aconteceria apenas três
anos depois.
Almeida (1998, p.61) confirma a data de 1586 como da fundação
da Vila São João. Tem sua igreja o mesmo nome, não sendo
conhecida a data do início da sua construção, sendo provavelmente
anterior a inauguração da Vila.
Entre os anos de 1591 a 1595, intensificam-se as visitações
do Tribunal do Santo Ofício (Inquisição), com prisão
de vários cristãos-novos (judeus e descendentes convertidos)
em povoados da Bahia, acusados de heresia. (Serrão, 1968,p.70-l)
Novo levante indígena em Porto Seguro acontece em 1609. Os engenhos
são destruídos, praticamente acabando o ciclo dessa economia,
segundo o relato de Fontana. (1998, p. 46)
-
- -É
de 1612, o documento transcrito em Serrão (1968, p. 141) que fala das
despesas e rendas do Brasil em 1610-1612, informando a balança de pagamento
deficitária de Porto Seguro que conta "apenas com um engenho em
laboração" e vive uma época estagnada.
Em 1625 acontecem mais denúncias ao Santo Ofício, de pessoas
de Porto Seguro, por um padre Frei do Espírito Santo, do Rio de Janeiro,
que serviu de procurador das Capitanias do Sul. (Novinsky, 1972, p. 116)
Continuando as guerras internas, Trancoso, em 1634, é quase totalmente
destruída pêlos índios gueréns, conforme relata
Fontana. (1988, p. 57)
-
- -Segue
um hiato de mais de meio século de história desconhecida. Sabe-se
que em 1711, o litoral brasileiro foi invadido por piratas atrás do
ouro das terras brasileiras. Em 1718 chegam a Bahia famílias de ciganos,
expulsos pelo rei dom João V, os saltimbancos ... (Kidder, 1972, p.23)
-
- -Nessa
época o monopólio jesuítico começou a declinar
em Portugal, sendo apoiadas pelo rei as novas ordens como: os oratorianos
e teatrinos.
-
- -Em
1755 o governo da Bahia aboliu a administração dos jesuítas
das aldeias (Abreu, 1969, p. 199), surgindo logo em 1757, leis contra a escravidão
indígena e instituição de diretores em aldeias (Wehling
& Wehling, 1994, p. 310), devendo estas ter então uma administração
puramente civil. (Abreu, 1969, p. 200).
Os jesuítas são expulsos do Brasil e de Portugal, em 1759, por
Marquês de Pombal. Consegue ainda o governador, junto ao Papa, a extinção
da Ordem. (Wehling & Wehling, 1994, p. 154 e Abreu, 1969, p. 203)
-
- -A
Aldeia
de São João, em 1759, é elevada a Vila "Nova Trancoso",
por Alvará Régio de Dom José I, segundo o documento:
"Aos vinte dias do mês de janeiro de 1759 anos, nesta Aldeia de
São João da Capitania de Porto Seguro, onde eu tabelião
adiante nomeado fui indo com o Capitão-Mor da dieta Capitania, Antônio
da Costa Souza e o Ouvidor da mesma, Manuel da Cruz Pereira, e na casa sua
aposentadoria, aí mandaram vir perante si todos os principais da dita
aldeia e mais o povo dela ... determinar-lhes levantar Vila nesta Aldeia,
fazer juízo a todos os mais oficiais da Câmara, justiça
e milícia dando à nova vila o nome de Nova Trancoso ... e logo
elegerão uma casa de telhas, que havia na dita Aldeia (junto à
casa de morada dos Reverendos Missionários e dela por eles mandada
fabricar para os seus despejos) para a casa da Câmara um Pelourinho
de madeira lavrada em quatro faces, ... e que de hoje em diante não
fosse intitulada com outro nome mais que com o referido, que o qual o dito
Senhor lhe mandava dar." (Fontana, 1988, p.56)
-
- -Outro
documento em Abreu, de um 'suspeito jesuíta', segundo ele, dá
prosseguimento a pesquisa, montando a história.
"Veio-lhes pois ao pensamento dar o nome e os privilégios de vilas
à semelhança das que há em Portugal a muitas aldeias
que os índios habitavam, não obstante constarem todas de pobres,
e rústicas choupanas, a exceção da igreja e casas dos
párocos. Para isto mandando levantar um grande pau no meio de um terreno,
dava a este sítio o nome de pelourinho; depois escolhendo entre todos
aqueles selvagens alguns, que lhe pareceram ou pela fisionomia do rosto ou
pela pele mole do corpo, mais hábeis para os empregos, a que os queria
elevar, os constituiu como vereadores ou juizes dos mais dizendo-lhes que
eles eram tão bons, como os portugueses: que se governassem a si, sem
dependência, ou sujeição alguma dos missionários.
Além disto mandou vestir e calçar estas suas novas criaturas,
assentá-las à sua mesa, fazendo-lhes nela muitos brindes, e
ensinando-lhes ... Os índios porém, acabada a comida, e a companhia
desfeita, esquecendo-se de quanto lhes tinha dito o senhor Mendonça
apenas saíram da sua presença tiraram os sapatos e vestidos
e se emborracharm com os seus vinhos..." (Abreu, 1969, p. 201)
-
- -No
início do texto exposto, o autor fala sobre o pensamento ocorrido na
época: 'nomear as novas vilas com nomes de vilas portuguesas semelhantes'.
Surge uma explicação para o novo nome da 'Aldeia São
João', então nomeada de 'Vila Nova Trancoso', provavelmente
espelhado na Vila de mesmo nome em Portugal, situada no Distrito da Guarda,
que fez fronteira com Celorico, conforme mapa encontrado no site www.cm-trancoso.pt
(2002).
-
- -Ainda
em Abreu (1996, p. 197) encontra-se uma importante citação de
Loreto Couto, beneditino pernambucano que escreve em 1757, manifestando glorificação
ao indígena, em confronto com a antiga gente da região do 'Trancoso
português', o que confirma a equivalência da descrição
acima.
"Portugal entre Celorico e Trancoso habitavam povos tão brutos
e silvestres como animais indómitos, tão rudos que uma família
não entendia a língua de outra com menos de duas léguas
de distância, pelo que eram julgados pêlos povos confiantes como
bestas mais feras que as mesmas feras!" (Abreu, 1969, p. 197)
-
- -Mostra
ainda o autor outro documento de escritor também pernambucano, ridicularizando
a situação em que os governantes haviam deixado acontecer:
"Os índios têm vilas, e câmaras; e são nelas
juizes, sem saberem nem ler, nem escrever, nem discorrer! Tudo supre o escrivão;
o qual, não passando muitas vezes de um mulato sapateiro, ou alfaiate,
dirige a seu arbítrio aquelas câmaras de irracionais..."
( Abreu, 1969, p. 203)
-
- -Estes
diretores, subistituindo os jesuítas nas aldeias, deveriam ensinar
os índios a comerciar e cultivar terras, tornando-se "por esta
forma cristãos, civis e ricos, que é o que sem dúvida
alguma lhe há de suceder se os diretores fizerem a sua obrigação",
palavras transcritas de Mendonça Furtado, Governador-geral em Belém,
em Abreu (1969, p. 200).
É o pensamento implantado pelos colonizadores da época: 'Ser
cristão, fazer parte da sociedade civil e cultivar a ambição
do acúmulo de bens'. Para tanto não é necessário
muito estudo, apenas trabalho e o abandono de muitas crenças, costumes
e traços característicos da cultura local.
-
- -Em
1778, fala-se sobre o esvaziamento e desarticulação das missões.
O sistema não funcionou devido à exploração em
proveito próprio pelos diretores, sendo então extintos os diretórios.
(Wehling & Wehling, 1994, p. 310)
Avançando alguns anos, temos breve comentário de Abreu (1960,
p. 63-4) "... Por todo ele se estendia mata grossa e enredada, que vedava
passagem. A via única de penetração somava-se em rios...
Ilhéus, Porto Seguro... pouco diferi em 1801 do que foram em 1601.”
-
- -Outro
texto encontrado no diário de Lindley, de Porto Seguro, datado de 17
de agosto de 1802, dá notícias da continuidade das desavenças
entre 'mulatos nativos' de Trancoso e índios aimorés.
"Chegaram noticias de Trancoso, informando que os índios ontem
estiveram na orla da mata próxima à vila, tendo atingido dois
mulatos. Um deles levou uma flechada na coxa e o outro, no peito. Este, caindo,
foi imediatamente massacrado. Seu companheiro, ferido também no braço
e nas costas, escapou só por aquele momento, pois morreu no mesmo dia.
Dez mosquetes, pólvora e balas foram logo enviados aos moradores, para
se defenderem. Os arcos desses índios assemelham-se ao arco longo dos
ingleses. Medem aproximadamente seis pés e seis polegadas de comprimento
e são de sólida feitura, de madeira pesada..." (Lindley,
1969, p. 46-7)
Neste mesmo texto, em nota de rodapé temos: "Tranquoso, no original.
Trancoso é uma pequena Vila a 4 léguas de Porto Seguro, à
margem de uma enseada, fundada pelos jesuítas. É hoje sede do
distrito de igual nome".
-
- -No
mesmo livro, surge um breve comentário sobre a beleza do lugar, a praia
recortada por rios conforme demonstra a figura:" ...a pequena e rasa
baía de Trancoso, recorta a praia. Há aqui várias fazendas
e a região é encantadora." (Lindley, 1969, p. 155).
Pouco mais que uma década, em 1813, o Príncipe Maximiliano,
em sua viagem, registra as tribos indígenas que vivem ao redor de Trancoso.
- - -"Tanto os "Patachos" como os "Machacaris" vivem nas florestas da região, às margens do Jucurucú. Os últimos sempre se mostraram mais inclinados à paz com os brancos do que os primeiros, que somente chegaram a um acordo amigável havia três anos (...) os Patachos são entre os restantes, os mais desconfiados e reservados; o olhar é sempre frio e carrancudo, sendo muito raro permitirem que os filhos se criem entre os brancos, como as outras tribos o fazem prontamente. Vagueiam pelas cercanias; as hordas surgem altemadamente, no Alcobaça, em Prado, Comuruxatiba, Trancoso, etc. Chegando a qualquer lugar, os moradores lhes dão algo para comer, trocando com eles miudezas pulseiras e outros produtos da mata, após o que voltam às brenhas." (Maximiliano, 1940, p. 208/9)
-
- -À
cavalo pelas praias da região, revela características de Trancoso,
por onde passa e fica alojado na Casa da Câmara. Trata-se do relato
mais detalhado encontrado sobre a então Vila de Trancoso.
"A manhã seguinte foi ventosa e fria: embrulhamos as roupas molhadas
e rumamos para Trancoso. A maré estava então na maior baixa,
e o mar deixara completamente descobertos trechos extensos de bancos rochosos
e planos: alguns índios, moradores esparsos das pequenas matas vizinhas,
apanhavam moluscos para comer. Comem várias qualidades de mariscos,
sobretudo a variedade preta e comestível de ouriço do mar (Echinus).
Após uma caminhada de três léguas, atingimos o ponto em
que um riachinho se lança ao mar: é comumente conhecido por
Rio de Trancoso; porém na velha língua aborígene era
chamado Itapitanga (filho das pedras), provavelmente porque vem de montanhas
pedregosas: corre em um vale bastante profundo, rodeado de montanhas de cimos
extensos e planos. Do lado sul se percebe erguendo-se sobre o litoral baixo,
as comas de altanados coqueiros e o telhado e a cruz do convento de jesuítas
de Trancoso. Alguns homens, indo adiante, conduziram-nos por um caminho escabroso
até à vila, onde nos alojamos, por esse dia, na "casa da
câmara". (Maximiliano, 1940, p. 216)
-
- -No
próximo texto transcrito, Maximiliano fala de como está a Vila
edificada. Em forma de praça, com a Câmara ao centro, na extremidade
do lado do mar a igreja, antigo conventos dos jesuítas, que em sua
passagem há muito tinham se retirado de Trancoso. Fala de uma biblioteca
dispersada ou destruída.
Pode estar sugerido em seu discurso um possível 'braço' da Santa
Inquisição, representada por muitos 'visitadores' nessa região.
A destruição de livros com conteúdos não interessantes
para a religião cristã da época é um fato comum
ao Santo Ofício, retratado no filme "O Nome da Rosa" (1986),
adaptação do romance de Humberto Eco .
"Trancoso é uma vila índia, edificada numa longa praça.
No meio fica a "casa da Câmara", e na extremidade, do lado
do mar, a igreja, que foi outrora um convento de jesuítas. Depois da
dissolução da ordem, o convento foi demolido e a biblioteca
dispersada ou destruída." (Maximiliano, 1940, p. 216 )
-
- -Prossegue
Maximiliano e relata uma vida ativa da aldeia: um número razoável
de moradores, a maioria índios, provavelmente ainda não miscigenados
com as poucas famílias de portugueses residentes. Fala sobre o trabalho
nas roças e a exportação de alimentos como farinha, algodão
e outros produtos. Comenta sobre a atividade de pesca no mar, em canoas. A
criação de gados também faz parte da economia local da
Vila nessa época.
-
- -Em
1813, a vila possuía cerca de 50 casas e 500 habitantes, todos índios,
muitos dos quais de tez bronzeada muito escura, pois bem poucas famílias
de portugueses aí residem, entre estes o padre, o "escrivão"
e um mercador. As casas, então, estavam na maior partes vazias, porque
os moradores vivem nas plantações, limitando-se a vir à
igreja nos domingos e dias santos. Exportam perto de 1000 alqueires de farinha
de mandioca, um pouco de algodão e diversos produtos da floresta; entre
estes, pranchas, "gamelas" (tigelas de madeira) e canoas, além
de alguma "embira" e "estopa" (entrecasca de duas espécies
diferentes de árvores). Em 1813, o valor desses vários produtos
foi de $539 $520 reis. As plantações dos índios estão
bem tratadas; cultivam diversas raízes comestíveis, tais como
"batatas" "mangaranitos" (Arum esculentum), "cará",
"aipim" ou "mandioca", etc., e às vezes vendem
esses produtos. A pesca é também uma das atividades essenciais
desses índios; no bom tempo saem a pescar mar a fora, nas canoas. Também
fazem, no litoral, currais ou "gamboas", a que nos referimos antes.
Cria-se algum gado nas colinas do Trancoso, e o "escrivão",
sobretudo, possui um grande rebanho; mas a criação tem que aí
vencer sérios inconvenientes. O "campo" dá um pasto
seco e nutritivo, com que o gado engorda depressa; entretanto, si não
é mandado imediatamente para uma pastagem fresca e úmida, morre
todo. A fim de afastar esse perigo, o rebanho é levado de vez em quando
ao Rio do Frade. (Maximiliano, 1940, p. 216-17)
-
- -Animais
como a onça faz parte da fauna local, assaltam gados e assustam os
moradores. Eles têm que enfrentá-las com a tecnologia que possuem
na época (armadilhas artesanais e precárias armas de fogo).
Interessante notar o Príncipe Maximiliano em todo o seu relato. Nomeia
de modo científico plantas e animais, como o caso aqui da onça
(Felis Onça Linrí), provavelmente por ser estudioso da natureza
e do meio ambiente, fazendo questão de registrar e classificar o que
encontra em sua passagem.
-
- -"Ao
visitar de novo esse lugar, em Novembro, uma grande onça (Felis Onça,
Linn.), refugiada nas circujacências, diariamente assaltava o gado pertencente
aos moradores da vila. Fizeram-se “mundéus “, e, felizmente,
apanharam o filhote da onça: esta, porém, ainda rondava pelas
cercanias, enchendo as noites com os seus roucos lamentos. Pouco depois, os
índios colocaram armadilhas de arma de fogo em uma trilha que ela costumava
seguir, conseguindo matá-la. Á onça foi logo trazida
e eu comprei a pele em Trancoso, parecendo-me que o animal pertencia à
variedade conhecida, no "sertão" da "capitania"
da Baía, pelo nome de "cangussú", caracterizada pelo
grande número de pequenas manchas." (Maximiliano, 1940, p.-217)
-
- -Neste
ponto da descrição, exalta a natureza exuberante de Trancoso,
com matas, oceano, rios, planaltos e vales, que formam a paisagem onde está
contida. Volta a falar dos pataxós, os quais moram nas florestas que
faz fundo à Vila na época.
- - -A situação de Trancoso é deveras aprazível: da extremidade da íngreme eminência, perto da igreja, dominávamos amplo panorama de sereno espelho oceânico, azul-escuro e cintilante; o encontro, muito nítido, da água verde do mar com pardacenta do rio dava especial encanto ao quadro. As comas soberbas dos altos coqueiros ondeavam sobre as cabanas acachapadas dos índios e, em redor , o "campo" inteiro verdejava. Todos esses planaltos incultos são interceptados por vales profundos, alguns dos quais de considerável largura; do meio deles o conjunto parece um plano continuo; só se percebem os vales das bordas. No fundo dos vales correm pequenas correntes, que se lançam no Itapitanga. O que fica ao pé da elevação do Trancoso é um belo prado cheio de arbustos, em que o lindo pombo aí conhecido por "pucacú" ou "caçaroba" e na sistemática por Columba rufina, é visto freqüentemente. Bosques e capinzais orlam as margens do pequeno curso dágua, onde então se construía uma lancha. Por trás de Trancoso, as florestas mais distantes são12 em muitos livros antigos a palavra pataxós, é escrita 'patachos'. Preferimos a primeira forma, por ser a mais usada atualmente, inclusive pelos próprios índios da aldeia de Barra Velha e Coroa Vermelha habitadas pelos pataxós.
-
- -"O
senhor
Padre" Inácio, o digno e velho sacerdote local, disse-me que esses
aborígenes aparecem muitas vezes na vila; vão sempre completamente
nus, e, si ele amarra um lenço em torno da cintura das mulheres, nunca
deixam de arrancá-lo imediatamente. (Maxim iliano, 1940, p.
-
- -Em
1816, Debret (1978, p. 151), artista plástico francês, se refere
à Trancoso como pertencente a Comarca de Porto Seguro, na Província
da Bahia. Descreve as diferentes tribos e raças já miscigenadas
vivendo no local.
Daniel Kidder, pastor americano, fala da costa do Espírito Santo, Província
da antiga Capitania do mesmo nome e parte da de Porto Seguro.Regiões
escassamente povoadas e sem o progresso atingido nos outros lugares por que
passa. Fala de terras férteis, as quais conhecem em 1835, matas com
madeiras, e plantas medicinais, tribos selvagens, dizendo não haver
pelo interior, caminho algum ou estrada batida que ligue a cidade do Rio de
Janeiro e a Bahia, os dois limites do local que descreve. Fala ainda sobre
os primeiros povoados em ruínas. (Kidder, 1 972, p. 4-6)
-
- -Entre
1836 e 1878, Francisco Adolfo de Varnhagen, escreve sobre Porto Seguro. Recebeu
o título de Visconde de Porto Seguro (apesar de natural de Sorocaba,
Estado de São Paulo) por sua luta em defesa do local. (Fontana, 1 988,
p. 13).
Na década de 1920 e 1940, há notícia de 'biribanos sem
qualificação deixados nas praias de porto pêlos navios
de Unha. (Fontana, 1988,33).
-
- -Avançando-se
um pouco e há um espaço temporal sobre o qual nada é
encontrado escrito a respeito de Trancoso. Apenas 'uma notícia da extinção
da Vila em 8 de junho de 1927. Tal fato é narrado por Fontana em: 'Porto
Seguro: de aldeia de pescador a aldeia global' (1988 p. 56).
-
- -Prossegue
o autor falando um pouco dos anos 70, do mesmo século, quando o povoado
é constituído apenas por nativos (descendentes das" 'biribanos'
ou' biribandos', nome que os nativos davam aos andarilhos que apareciam nas
praias de Porto Seguro. (primeiras miscigenações entre brancos,
índios e negros). Descreve ainda, a formação da Vila
em forma de praça retangular, tal como a encontra o Príncipe
Maximiliano em 1813. Exalta as festas de cunho religioso, misturadas com outras
tradições, formando a característica de Trancoso do século
XX. Comenta sobre os meios de transporte, meios de comunicação
e escolas nos primeiros anos dessa década.
-
- -Até
1972, só se chegava a Trancoso pela praia, a cavalo ou de barco. Em
1973, finalmente a estrada construída pela prefeitura, chegou até
o Rio da Barra. Quando finalmente a estrada foi terminada, as perspectivas
começaram a melhorar... Em 1974, segundo dados da Seplantec, Trancoso
possuía 43 casas residenciais, 3 estabelecimentos comerciais e uma
escola. A agricultura era quase toda para a sobrevivência e o muito
que se exportava para Ajuda ou Porto Seguro, era a farinha e o beiju feitos
com a própria mandioca (Fontana, 1988, p.57)
-
- -Conforme
dados de sua narrativa, verifica-se um menor número de casas do que
na época descrita por Maximiliano, o que não demonstra um crescimento
da população.
Fala em 'caboclos', certificando a miscigenação acontecida neste
último século, numa mistura das diferentes etnias. A 'exportação'
de diversos produtos locais, reduzida, segundo a narrativa de Fontana, a entrega
de farinha e beiju em Porto Seguro. A agricultura de sobrevivência é
o que impera no século XX. Uma das bases da alimentação
da população ainda é a pesca. Surge o comércio
dentro do próprio povoado e uma escola. Provavelmente o autor se refere
a professora Higina, que dava aulas em Trancoso, durante a década de
1970.
-
- -Continua
o autor (Fontana, 1988), falando sobre o final dos anos 70, quando artistas,
intelectuais, aventureiros e curiosos começam a aparecer em Trancoso,
dando início ao processo de mudança da comunidade. Fazendo amizade
com os nativos, permanecem como hóspedes por algum tempo, retornando
todos os 'verões. No início poucos ficam morando. Vivem de artesanato
ou do comércio de produtos como pães, doces caseiros e outros,
que são vendidos às pessoas que chegam. Surge assim uma nova
economia, o Turismo.
Verão - “expressão utilizada pelos nativos para indicar
período de férias e de calor, quando os turistas aparecem.”
-
- -Trancoso,
até então compõe uma das partes dos "dois Brasis"
igualmente brasileiros, mas separados por vários séculos, descrito
por Lambert em 1955. "A casa de taipa e o edifício de concreto
são os símbolos expressivos dos níveis de cultura que
constituem o país" (Lambert, 1973, p.125). Frase que ilustra perfeitamente
a já referida escultura de Cleude (ex-aluno), vista durante a pesquisa
de campo. Ao criá-la, expressa o contraste acontecendo, entre dois
mundos, trazidos agora para dentro da própria realidade de Trancoso.
Ressurge um novo momento cultural, com novas influências e trocas. Repetem
assim outras épocas, principalmente os últimos 500 anos, em
que portugueses e demais europeus trocam técnicas e costumes.
-
- -A
nova fase traz consigo, de forma sutil, uma 'nova colonização'.
Nos povos que chegam de fora, está enraizada a idéia de dominação.
Mesmo em alguns daqueles primeiros "Sonhadores de Trancoso" (nome
de capítulo de Fontana, 1988), em busca de liberdade dos padrões
e velhos costumes, percebe-se uma mudança de comportamento, quando
os turistas se aproximam em maior escala. Entre dominar ou serem dominados,
fazem a sua opção. Muitos compram casas e terrenos dos nativos
e tornam-se empregadores em pequenos comércios locais. Usam a mão-de-obra
nativa na construção e conservação de suas moradias
e seus comércios.
Em meados da década de 1980, Trancoso depara-se com uma nova realidade.
Passa não mais a compor uma das partes, mas a conter as duas partes,
os "dois Brasis", dentro da própria comunidade. Duas ou mais
realidades culturais diversas tentam viver no mesmo espaço/tempo.
- - -A população, agora em nova fase do processo de miscigenação, inclui pessoas de vários lugares do Brasil e de diversas partes do mundo, numa mistura de etnias. Vive um grande desafio de passar por essa transformação, unindo os "dois Trancoso", numa só cultura, numa só comunidade. Apesar da diversidade cultural imensa, pode tornar-se um local de pluraridades que se respeitam e se inter-relacionam, compondo uma nova sociedade, sem preconceitos e domínios.
Como Trancoso virou colônia... o começo!!!
-
- -Sabemos
que a história da colonização de Trancoso tem início
com o mecanismo do 'degredo', pelo qual os brancos portugueses purgavam seus
pecados na colônia-purgatório.
-
- -Aqui
a vida dialética representa céu e inferno nas imagens passadas
pelos primeiros visitantes ou mesmo moradores vindos do além mar. Essa
dicotomia é o ponto central da discussão de Laura de Mello e
Souza (1986), em seu estudo "O Diabo e a Terra de Santa Cruz".
-
- -Ora
o paraíso das terras tropicais, abundantes de alimentos e liberdade.
Ora a terra dos selvagens, do calor abrasante, da falta de conforto, dos terríveis
e temíveis animais e monstros.
Local propício para se pagar o pecado de 'não ser cristão',
um dos crimes mais graves da época. O fato de ter conhecido ou sido
criado por outros credos, não dá o direito de escolha. Muitos
réus são punidos pelo Tribunal da Inquisição,
cumprindo penas no Brasil.
Pesquisando sobre 'Cristãos Novos na Bahia', Anita Novinsky (1972),
passa a visão do que ocorre com esta parcela significante da população
de origem não cristã.
-
- -Tudo
tem início com a intolerância já demonstrada na vida européia
cristã de 1215, onde uma lei "obriga judeus a usar sinais em suas
vestimentas a fim de serem mais facilmente distinguidos dos cristãos."
(Novinsky, 1972, p. 27)
Nessa época fugitivos chegam a Portugal, integrando-se a sociedade
judaica ou cristã, sendo acolhidos pelo reino.
No final século XV, mais precisamente com D. Manoel, imigrantes são
proibidos de continuarem sua prática judaica, ou mesmo qualquer resquício
desta, levados à força para a conversão ao catolicismo,
(p. 30).
-
- -O
preconceito contra o 'herege' religioso nasce da manifestação
do nacionalismo intolerante que identifica como inimigos da pátria
grupos étnicos e religiosos alheios ao Cristianismo. A perseguição
contra o 'herege' é, portanto um fenômeno que surge em determinado
tempo e local da Europa, espalhando-se na propagação da caça
aos 'diferentes', persistindo até os dias de hoje com seus adeptos,
(p. 33).
-
- -O
judeu
de Portugal, convertido em católico, fica à margem da sociedade
"mantendo quase inconscientemente, a aversão hereditária
ao culto das imagens, à comunhão e à confissão...”
(p. 37- 40).
Aqueles que partem para as colônias de além-mar assumem uma atitude
de inconformismo religioso, tornando-se céticos e críticos da
religião oficial, opondo-se ao espírito de autoridade e ao dogmatismo
da Igreja... (p. 40)
O cristão-novo passa a ser o 'novo bode expiatório', como já
fora o judeu genuíno. A luta contra a heresia se transforma numa psicose
coletiva.
-
- -A
'limpeza de sangue' é propagada na segunda metade do século
XVI, excluindo dos quadros das instituições qualquer descendente
de judeu, mouro ou negro. A Inquisição se não cria os
estatutos de 'pureza de sangue', aceita tais critérios e os põe
em prática.
- - -Os cristãos-novos no Brasil tem características diferentes dos demais que imigram para o norte da Europa. Miscigena-se com a população nativa, que também não é de origem cristã, criando raízes na nova Terra. Mantém vivo em seu espírito a condição de pária.
-
- -Uma
população desconfiada, insegura e extremamente crítica...
Exteriormente uma capa de conformismo e uma técnica de acomodação,
que são utilizados como soluções comuns, num regime de
força e fiscalização como o mantido pelo 'Santo Ofício'
(p. 58).
Segundo a legislação cabe ao cristão-novo, no quadro
social o mesmo lugar que ao negro. Portanto, o fato de ser branco como o cristão-velho,
permite usar habilidade para fazer parte deste grupo. Tornar-se senhor de
engenho nestas terras, traz uma posição de relevo, semelhante
ao fidalgo - extensão de terras e número de escravos é
o que precisava para emergir, (p. 59).
-
- -Encontram-se,
portanto cristãos-novos no Brasil colônia, espalhados como cultivadores
de terras, senhores de engenho. Os que têm condição humilde
(empregados, artesãos), e querem preservar seus traços culturais
e religiosos, mesclam-se com negros e índios. Os que querem alcançar
posições sociais altas, ansiosos por apagar sua origem, casam
com cristãos-velhos.
O
pedido do Vigário Temudo, registrado por Novinsky (1972), "pede
que se acuda a Bahia com um Tribunal, pois não somente os cristão-novos
eram judaizantes, e tinham sinagoga, mas até os índios praticavam
rituais judaicos" (p. 114).
São clássicas algumas histórias de cristãos-novos,
como a de Duarte Roiz Ulhoa, que tem uma imagem de Santa Tereza que na verdade
é a filha queimada em Lisboa (p. 132)
-
- -A
igreja de Nossa Senhora d'Ajuda é mencionada por diversos autores como
Igreja dos Cristãos-novos, em torno da qual se concentram a maior parte
dos cristãos-novos baianos.
Entre as práticas judaizantes estão: a crítica ao Santo
Ofício, o hábito de ter dois nomes e erguer capela para seus
mártires sacrificados em Lisboa.
-
- -Fala-se
do escândalo no Rio de Janeiro, quando se descobre que a antiga igreja
de Nossa Senhora da Ajuda, era na verdade culto de uma certa Maria de Judá...
(Salvador, 1969, p.160).
-
- -A
autora
já citada (Novinsky, 1972, p. 72), relata que durante o período
abrangido por seu estudo (1624-1654), os principais membros do clero a serviço
da Inquisição são os jesuítas. No Século
XVII, parte deles o pedido que se tire do Brasil a 'gente da nação'
(como eram chamados os cristãos-novos).
-
- -Não
foi sempre assim, o que mostra a pesquisa de José Gonçalves
Salvador (1969), e resulta no livro intitulado "Cristãos-novos,
Jesuítas e Inquisição". Entre os jesuítas,
estão muitos cristãos-novos.
Jesuítas: cristãos-novos ou inquisidores?
-
- -O
batismo forçado pretende eliminar distinções, tornando
todos praticantes da mesma fé, causa efeito contrário. Os conversos
judeus, como são vistos, passam a ser dominados cristãos-novos,
bem como seus filhos e descendentes.
-
- -Também
chamados de criptojudeus os cristãos fictícios, se opõem
aos cristãos-velhos. Grupo étnico-social privilegiado, vinculado
tradicionalmente à igreja e a antiga etnia, não israelita, nem
moura, negra ou de outra infecta sanguinidade, conforme acreditam certos europeus.
(Salvador, 1969, p. XX).
-
- -No
Brasil, à testa de vigárias importantes e em determinadas ocasiões
um bom número de igrejas se acha suprido por sacerdotes cristãos-novos.
Muitos deles são colaboradores do Santo Ofício, empenhados na
conversão dos irmãos de mesma etnia, mesmo que agressivamente.
-
- -"Nas
longínquas capitanias do Sul o quadro apresenta-se mais amplo ainda,
quanto ao número de sacerdotes e de religiosos cristãos-novos
identificados por nós. Afora os jesuítas Leonardo Nunes, Inácio
de Loyola, que eram por inteiro, e José de Anchieta só em parte...
(Salvador, 1969, p. 31)”.
-
- -Por
mais estranho que pareça o hebreu querer fazer-se clero católico,
entende-se que o sacerdócio é uma ótima profissão,
de respeito e prestígio, e que inclusive pode protegê-los da
própria condição.
Estabelecido o Tribunal do Santo Ofício em Portugal, acaba a tranqüilidade
dos cristãos-novos, mesmo aqueles que habitam as terras além
mar. Bastam denúncias falsas, produzidas por inimigos, para serem lançados
nos cárceres repugnantes, isolados da família e do mundo, despojados
dos bens materiais, mal nutridos, ignorando o nome do acusador, e submetido
a castigos típicos, como o 'polé' e o 'potro'27(p.81)
-
- -Mesmo
saindo com vida, caso julgados inocentes, ficam com anomalias, pobres e mal
vistos pela sociedade.
Se são os jesuítas cristãos-novos convertidos em verdadeiros
Inquisidores, ou se aproveitam do sacerdócio para não causar
mais suspeitas.
“polé”: içados pêlos braços, por uma corda que corria numa roldana e largado do alto; “‘potro: banco ou cama de ripas em que se amarrava, e cordas arrochadas por manivelas. Quem se mantivesse pertinaz seria condenado à fogueira”.
-
- -Quanto
a sua origem judaica, podendo dessa forma passar desapercebidos entre cristãos-velhos,
não é conhecida a verdade.
É fato no Brasil, durante os primeiros séculos, que quase todo
o ensino permanece em mãos dos membros da Companhia de Jesus. São
as escolas de que dispõem as famílias para os filhos. Ficam
os jesuítas responsáveis pela administração das
aldeias e educação da população, até a
sua expulsão do país, já comentada neste trabalho.
-
- -Não
é certo que todos lutam por uma missão essencialmente cristã.
Se há muitos cristãos-novos infiltrados em seu meio, é
possível que estes tenham sido favorável também à
liberdade de expressão religiosa e cultural.
É o que parece ter acontecido em Porto Seguro, no Arraial D'Ájuda
e mais precisamente em Trancoso. Mesmo separado por várias gerações,
os habitantes do final do século XX, tem características fortes,
que marcam seu modo de ser, de sentir e de viver o mundo, que pouco ou nada
correspondem ao critério europeu, branco, católico, adotado
por grande parte de nosso país.
Usos e costumes preservados
- - -As descrições das casas indígenas do início do século XVII correspondem às casas dos nativos de Trancoso nos anos 80: pau-a-pique, embarreadas e cobertas por palhas ou 'taubinha' com chão de terra, sem divisões.
Fonte: "Trancoso, uma história de vida e educação" 2002
Autora: Mariângela de Lara Moraes Daibert
Centro de Pós-graduação da Associação de Ensino de Itapetininga
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