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A fama mundial de cidade turística traz em massa uma nova população
em busca de emprego, dinheiro e liberdade. Sem estrutura para recebê-los,
Trancoso divide-se em duas cidades. Essa subclasse sofre de carência
de habitação, de recursos de saúde, precariedade educacional
e econômica. Inadequados ao local, passam a viver num submundo, dentro
do 'paraíso tropical' que buscam. - - - - - -
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- - - - - - - - - Dentro
dessa difícil realidade, nem sempre todos estão dispostos a
trocar e interagir respeitando as tradições locais, o que cria
um abismo ainda maior entre os 'dois Trancosos'.
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Desde
meados da década de 1980, inicia-se a formação de uma
nova comunidade. Trancoso da água encanada, da luz elétrica,
dos novos costumes vindos com diferentes grupos nacionais e estrangeiros
chegando para ficar.
Nativos começam a misturar o sangue com os novos moradores. Casamentos,
uniões e filhos acontecem. Os mais antigos vão aos poucos
se adaptando a presente vida, apreciando alguns pontos do progresso, criticando
outros.
Mudam os modos, os costumes, ficam algumas tradições.
- - - - De
pescadores e plantadores de roça, a grande maioria passa a comerciante.
No início recebem os visitantes em suas próprias casas, transformando-as
depois em bares, pousadas e restaurantes.
Aos poucos, constroem suas residências em locais mais afastados, deixando
o 'quadrado' exclusivamente para o comércio.
Os que casam com pessoas de fora, modificam mais rapidamente seus hábitos:
alimentação, vestimenta, e outros.
Os nativos passam a aproximar a sua cultura, antes peculiar e de característica
marcante, à cultura dos que vem de fora, brasileiros de outras regiões
ou estrangeiros.
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- - - - Nasce
um 'novo Trancoso', não mais a aldeia isolada, mas agora um povoado
ou 'cidade global'.
Prestes a se emancipar de Porto Seguro, correndo já um movimento
para ser desmembrada como cidade, dá um salto, deixando de viver
como outras um processo lento de desenvolvimento. Desencadeia um crescimento
espacial e temporal com ritmo acelerado.
Suas novas características se enquadram às palavras de Octavio
lanni (1997), em livro sobre a 'Era do Globalismo'.
- - - - A cidade global está sempre na encruzilhada da geografia e história, das relações sociais nas escalas: "Local, provinciana, nacional, regional e mundial. Às vezes, está fortemente determinada pelo que é local, outras aí predomina o que é nacional, mas há casos em que ela é essencialmente mundial”.
Continua comparando a cidade global a um caleidoscópio, o que bem
se enquadra na realidade atual de Trancoso.
(Ianni, 1997, p.59).
- - - - As marcas de outros povos, diferentes culturas, distintos modos de ser podem concentrar-se e conviver no mesmo lugar, como síntese de todo mundo. A cidade pode ser um caleidoscópio de padrões e valores culturais, línguas e dialetos, religiões e seitas, modos de vestir e alimentar, etnias e raças, problemas e dilemas, ideologias e utopias. Algumas sintetizam todo o mundo, diferentes características da sociedade global, tomando-se principalmente cosmópolis, antes do que cidades nacionais.
(lanni, 1997, p. 66).
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- - - - Para entender a transformação de Trancoso, é importante entender a realidade que se vive no final do século XX, "resultado da globalização do capitalismo". Processo civilizatório que invade, conquista, assimila, desafia e mesmo convive, recriando as formas de vida em todos os cantos do mundo. Faz parte de um processo histórico de amplas proporções já desenvolvido durante o mercantilismo, colonialismo e imperialismo, alcançando intensidade é generalização no limiar do século XXI.
(lanni, 1997, p. 64).
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- - - - Esse
processo acontece em escala gradual, desde a época das grandes navegações,
quando os portugueses oficializaram a posse das terras brasileiras. Só
agora chega ao ápice este movimento - o capitalismo mundial.
Trancoso foge a regra apresentando até pouco tempo características
distantes da vida capitalista. Espelha a cultura indígena brasileira
da época do Brasil Colônia e das aldeias portuguesas da Idade
Média. Conta com uma população de pescadores, pequenos
agricultores e artesãos trabalhando com pescaria, agricultura de
subsistência e marcenaria, conforme costumes locais.
- - - - Não passa por 'preparo'; sua população nativa acostumada com uma vida diferente desconhece até pouco tempo a mídia e os bens de consumo nela divulgados. Vive dentro de determinada harmonia com a natureza e com o que ela lhe proporciona, pouco conhecendo sobre as necessidades adquiridas pelo homem moderno e seu mundo de consumo.
- - - - Pula fases, amadurece rapidamente, em duas décadas, para conviver com a 'Era do Globalismo', transformando-a em 'cidade global'.
- - - - Procura acertar os defasados passos, mudando rapidamente, assimila culturas, idéias, busca não perder sua identidade em meio a pluralidade cultural manifesta.
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Tem a sociedade de Trancoso um difícil compromisso pela frente. Somar,
interagir e apoiar a subclasse nascida de "uma categoria de indivíduos,
famílias, membros das mais diversas etnias e migrantes, que se encontram
na condição de desempregados mais ou menos permanentes",
conseqüência do processo de globalização mundial.
(lanni, 1997, p. 67).
- - - - A
fama mundial de cidade turística traz em massa uma nova população
em busca de emprego, dinheiro e liberdade. Sem estrutura para recebê-los,
Trancoso divide-se em duas cidades. Essa subclasse sofre de carência
de habitação, de recursos de saúde, precariedade educacional
e econômica. Inadequados ao local, passam a viver um submundo, dentro
do 'paraíso tropical' que buscam.
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- - - - Dentro dessa difícil realidade, nem sempre todos estão dispostos a trocar e interagir respeitando as tradições locais, o que cria um abismo ainda maior entre os 'dois Trancosos'.
Fonte: "Trancoso, uma história de vida e educação" 2002
Autora: Mariângela de Lara Moraes Daibert
Centro de Pós-graduação da Associação de Ensino de Itapetininga